terça-feira, 29 de abril de 2008

E o TCC virou livro


Armazém Literário - Observatório da Imprensa

O MESTRE E OS FOCAS - O legado do repórter Leleco

Por Marco Maciel em 29/4/2008

Prefácio de Leleco, peça ausente, de Alexandre Costa Nascimento e Eduardo Mariot Araújo, 208 pp., LGE Editora, Brasília, 2008; R$ 28; título e intertítulos do OI

A iniciativa oportuna e necessária dos jornalistas Alexandre Costa Nascimento e Eduardo Mariot Araujo em pesquisar a carreira de Haroldo Cerqueira Lima (1939-2003), o Leleco, constitui-se momento para lançarmos luzes sobre aspecto central da profissão de jornalista, mas que, devido ao seu elevado e destoante grau de subjetividade, muitas vezes escapa a uma acurada abordagem nos cursos de jornalismo. Refiro-me ao princípio basilar do relacionamento interpessoal, que se expressa tanto no âmbito das redações quanto na relação direta com as fontes de informação e se escuda numa sólida formação moral.

A carreira de Leleco atingiu o ápice durante o regime militar, período em que o exercício do jornalismo, mais do que o domínio da técnica, exigiu companheirismo e uma sólida relação de confiança entre entrevistados e entrevistadores. Admirado e respeitado por todos, no período que vai dos anos JK à Constituinte de 1988, foi jornalista credenciado no Palácio do Planalto e, já no final da vida, trabalhou no Senado Federal. Seu empenho profissional se fazia notar mesmo em momentos que não foram registrados pelos jornais da época, como me revelou o competente e admirado jornalista Rubem de Azevedo Lima, que trabalhou com Leleco na sucursal da Folha de S.Paulo em Brasília.

Contou-me Rubem que em 1976, pouco antes da morte de Juscelino, a repórter Iara Stivalets Borges (filha de Mauro Borges, ex-governador de Goiás e amigo de JK quando eclodiu o Movimento de 64) conseguiu entrevistar o ex-presidente. De posse do material bruto e conscientes do seu valor, Leleco e ele se dedicaram ao trabalho de edição. "Eram mais de trinta laudas em espaço dois que foram reduzidas a vinte e enviadas para São Paulo, mas que jamais foram publicadas e acabaram se perdendo", lembra.
Lição antiga

Não se pode, contudo, falar de Leleco sem mencionar o Prêmio Esso de Jornalismo que a Folha de S.Paulo conquistou pela publicação da famosa entrevista com o general João Figueiredo, em abril de 1978. Feita por Leleco e Getúlio Bittencourt, teve duração de 95 minutos, foi integralmente redigida com base exclusivamente na memória dos repórteres e é considerada como uma das melhores reportagens brasileiras do século 20.
Simpático, bom caráter e de texto excelente, Leleco era um mestre na profissão. Tanto que Getúlio Bittencourt costuma repetir, a quantos o procuram, lição aprendida nos idos do regime militar mas que se aplica à permanente busca da qualidade para o ato de informar. Àquela época, declarou Leleco em entrevista a O Pasquim: "Está na hora de o jornalista brasileiro fazer a reciclagem do seu comportamento, senão será como nos 40 anos de salazarismo (a ditadura portuguesa): os jornalistas desaprenderam a informar e vão ter que aprender de novo".

***
Apresentação

A História é análoga a um quebra-cabeça, no qual cada peça é um fato isolado. Encontrar a relação entre os fatos, encaixando-os uns aos outros, é reconstruir a imagem de um passado. Quanto mais completo o quebra-cabeça, mais nítida é a imagem formada e, conseqüentemente, mais fácil se entender o período que ela representa. No entanto, no quebra-cabeça que representa a história do jornalismo brasileiro, uma peça está ausente: os fatos ligados à vida e a trajetória profissional de Haroldo Cerqueira Lima, o Leleco.
Como um dos pioneiros da imprensa na nova capital, Leleco foi repórter político do jornal Folha de S.Paulo credenciado junto ao Palácio do Planalto, onde trabalhou por quase três décadas cobrindo a gestão de todos os presidentes da República, entre os governos de Kubitscheck e Sarney. Em 1978, Leleco venceu o Prêmio Esso de Jornalismo, o principal da categoria no Brasil, após uma entrevista exclusiva com o então futuro presidente, general João Figueiredo. Afastado da atividade profissional em virtude de uma doença crônica desde o início da década de 90 e, refugiado do convívio de amigos e parentes na cidade de Curitiba, Haroldo foi sendo aos poucos esquecido.
Sofrendo de um câncer em estágio avançado, Haroldo Cerqueira Lima recebeu-nos em outubro de 2003 na sua residência para um encontro. Na oportunidade, pudemos ouvir o testemunho de várias experiências acumuladas por Leleco durante toda sua vida. Empolgados com a possibilidade de aprofundar os conhecimentos do jornalismo e diante da oportunidade de fazê-lo através da descoberta de detalhes da vida de Haroldo, mantivemos outros contatos com o jornalista. Até que surgiu a idéia de escrever sua biografia com a intenção de preencher a lacuna que sua ausência representa na história da imprensa brasileira. Já no hospital, dois dias antes de vir a falecer, a proposta foi-lhe apresentada, quando obtivemos seu consentimento.

O livro Leleco – Peça ausente tem como objetivo resgatar e divulgar os principais fatos que marcaram a vida e a trajetória de Haroldo Cerqueira Lima, para que seja possível às gerações presentes e futuras tirarem proveito das lições que a história nos oferece através de seu exemplo.

O livro reportagem biográfico foi organizado da seguinte forma:
** Primeira Parte – "O menino Baô": trata dos aspectos e vivências de infância, dificuldades, superações e problemas familiares no período entre 1939 a 1957;
** Segunda Parte – "Lelequinho": descreve o início da carreira no jornalismo pela Folha de S.Paulo, a escolha da profissão até a mudança para Brasília.
** Terceira Parte – "Leleco": mostra o envolvimento com o mundo da política em Brasília antes e depois do golpe de 64, relata a carreira de jornalista político, as grandes reportagens, as viagens internacionais, a vitória no Prêmio Esso e a luta pela redemocratização do país – período decorrente entre 1964 a 1990;
** Quarta Parte: "Haroldo": os aspectos da vida particular, a aposentadoria precoce, o refúgio em Curitiba, os problemas de saúde e as memórias de Haroldo até sua morte no ano de 2003.
O conteúdo deste projeto é resultado de um trabalho de pesquisa iniciado em outubro de 2003, data em que colhemos os primeiros depoimentos pessoais de Haroldo Cerqueira Lima. A partir de então, foram utilizados como fonte de estudo os documentos de acervo pessoal, entrevistas com familiares, amigos e colegas, pesquisa bibliográfica e o acervo de todas as matérias publicadas pelo jornalista.
Para sua elaboração, foram entrevistados, entre outros, Bóris Casoy, Ruy Lopes, Ana Lagôa, Getúlio Bittencourt e Jarbas Passarinho. O prefácio é assinado pelo senador e ex-vice-presidente Marco Maciel. O livro foi apresentado em dezembro de 2005 para uma banca de graduação do curso de jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná, que o avaliou com a nota máxima (10).

Duas premissas para viver: o amor


e a coragem




GP sobre jornalismo


Está no ar a página do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade (GJC), do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O site, que acaba de 'nascer' junto com o grupo, é um espaço para apresentar e discutir as pesquisas e análises realizadas pelo núcleo de pesquisadores.

O sítio http://jornalismocontemporaneo.wordpress.com/) também foi idealizado para promover um intercâmbio de idéias e contatos entre os que trabalham com o tema. Dessa forma, optou-se pelo recurso do blog. O grupo de pesquisa foi criado para desenvolver análises da natureza e história do Jornalismo, seus fundamentos epistemológicos, bem como estudar o Jornalismo como forma de conhecimento e prática social.

O GPJ também realiza investigações sobre Os Estudos e as Teorias do Jornalismo, considerando os aspectos da organização, produção, conteúdo e circulação de notícias. São ainda objeto de estudos e publicações: o Estatuto do Jornalismo como processo produtivo da notícia; as rotinas de produção; a cultura profissional; os constrangimentos organizacionais; os anunciantes e a linguagem, as novas tecnologias: impacto, efeito e produção de sentidos; o mercado jornalístico: desenvolvimento de projetos de cooperação e formação e, ainda, a ética e a deontologia jornalísticas. Além do site, o grupo também dispõe de uma lista de discussão (jornalismocontemporaneo@grupos.com.br).

SEMINÁRIO - Como primeira atividade do GJC, será realizado, em 28 de maio, o I Seminário de Jornalismo Contemporâneo, no miniauditório do Centro de Artes e Comunicação da UFPE, no Recife. O evento, que contará com a participação de pesquisadores das universidades federais de Sergipe, Paraíba e Pernambuco, tratará de temas como jornalismo e cotidiano, novas tecnologias, objetividade e pesquisa/metodologia.As inscrições, gratuitas, serão realizadas de 06 a 20 de maio, na secretaria do PPGCOM/UFPE. Vagas limitadas. Informações: (81) 2126.8960 ou pelo e-mail jornalismocontemporaneo@grupos.com.br.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O império se alastra



















No Mundo da Lua News agora também na Oceania com a colunista-correspondente...

Direto do amanhã


Carta do futuro

por Sabrina Passos*

Eu já sonhei em viajar para muitos lugares. Quando era criança e assistia à TV Cultura, queria ir para o Mundo da Lua. Depois, cresci um pouquinho e queria viajar para Pasárgada. Não rolou. Hoje, peço para a Fada do Dente passagem só de ida para a Terra do Nunca.

Sem direção ou caminho, decidi que viajar pelo mundo podia me colocar, eventualmente, em alguns lugares. Depois de me perder pela costa leste dos EUA por quase dois anos - e descobrir que viajar é muito mais que despedida e bagagem - viajei no tempo.

Sim. Parem os sinais de trânsito. Que os poodles e beagles parem de latir e comecem a miar. Que toda lasagna verde do planeta se transforme em chocolate meio amargo.

Eu viajei no tempo! Cruzar a linha internacional que pula a cerca do dia deu um frio na barriga e uma lombeira no corpo. Saí do hemisfério Norte, pulei para o do Sul e nadei direto para o lado de cá, depois do meridiano que divide o mundo em dois.

Estou na Oceania. Estou no seu amanhã - e você no meu ontem.
Quando eu tinha 7 anos dizia para minha mãe que já tinha quase 14. A minha lógica era perfeita e tão complexa que nem com meio cinqüentenário hoje consigo explicar. Mas depois dos 14 eu quis mesmo que o tempo parasse. Nunca quis crescer. Nunca quis completar 18 para tirar a carteira de motorista ou então 21 para poder tirar crédito do sistema penitenciário. Nunca quis prever o futuro. Muito menos viver nele.

Aqui no amanhã, não tem coco na praia. Tem milho, mas chamam de doce e anunciam como se fosse grande coisa de que o tal não é transgênico. Aqui no amanhã as crianças precisam usar chapéu se querem correr no pátio da escola no recreio. Prevenção.

Aqui eles não usam capacete ou qualquer proteção ao andar de bicicleta ou skate. Vai ver o futuro deixou as pessoas mais cabeças-duras ou menos suscetíveis à queda. Nesse futuro, vaso sanitário tem duas descargas. Estacionar o carro por uma hora custa quase o preço da prestação de um par de patins. Água é artigo de luxo. Custa mais que Coca-cola. E Coca-cola continua a mesma.

Aqui no futuro tem bicho que pula com filhote na barriga. Até parece com o passado. Tem gente falando uma língua engraçada, juram que é inglês. Prefiro meu "espanhol com sotaque francês". Calma, ainda falo português.

Aqui no futuro se dirige do lado contrário do carro. E não bastasse, do lado contrário da rua. Pedágio e drive-thru nunca foram tão desafiantes como no futuro.
Aqui, nada de semáforo. A onda é uma tal de rotatória. Bola para mim. Balão para um amigo do Paraná. Quem vem pela direita, tem o direito (ai que medo dessa frase).

Meu futuro está acontecendo na Austrália. Na última sexta, o país parou pra comemorar o Anzac Day, espécie de feriado militar que lembra os soldados mortos na primeira luta dos australianos e dos vizinhos da Nova Zelândia na I Guerra Mundial, contra os turcos e por Constantinopla - hoje Istambul. Aqui no futuro, as pessoas ainda param um dia para lembrar a ignorância do passado. E para não encarar a própria falência, se permitem beber até cair e jogar até perder. Normal. Vício do passado.

Sempre rolou uma crítica aqui fora pelo tanto de feriados que temos no Brasil. Inveja de gringo, claro. De volta ao hemisfério Sul, de volta aos feriados tropicais. Durante todo dia 25, os pubs e bares ficaram abertos e os jogos de azar, permitidos. Na hora do jantar, na sexta, café-da-manhã pra vocês, depois da minha aula de surf (eu sonhei que surfava no futuro e bati a cabeça na quina da cama), sentei num restaurante na beira de Bonde Beach para comer peixe com batata-frita, típico vício do passado. O agito da galera na rua me lembrou uma noite boa em Balneário Camboriú ou Piçarras ou qualquer boa praia do Brasil. Aqui no futuro, o clima parece com o do Brasil. As pessoas parecem com as do Brasil. A comida, melhor que a dos EUA - mas nem aos pés da do Brasil. Esse futuro potencializa minha vontade de passado.

Minha nostalgia pelo simples.
Minha devoção aos pequenos detalhes.
Esse futuro é legal. Toda casa tem teto, janela, chão e ar-condicionado central. Todo mundo tem a cara maquiada e o corpo sarado (menos eu e a mulher que atende no meu barzinho preferido, na esquina de baixo).
As horas têm menos minutos.
E os minutos menos segundos.

Aqui no futuro, as moedas têm muito valor. As boas maneiras também, ufa.
O futuro me dá saudade de casa. Agora mesmo, minha segunda-feira já acabou. A sua está só começando - mas eu bem que trocava de lugar. O futuro assusta um pouco. E só para avisar, a lua vai estar do jeito que eu gosto hoje à noite. No futuro, ela reflete no Pacífico.

*Sabrina Passos é jornalista, mora no futuro há três semanas e sente saudade do passado (Americano e brasileiro). Além do pão caseiro da vó e do colo da mãe, acha que o futuro ficaria bem mais legal com um bom rock do Rio Grande do Sul. É colunista do blog www.poracaso.com e pretende voltar ao passado logo. Antes, vai carimbar o passaporte pelo velho mundo. Jeito bom de recuperar o tempo 'perdido'.

Tão complexo quanto simples


Entrevista da 2ª - Folha de São Paulo (enviada por Luis Gomes)

EDGAR MORIN - FILÓSOFO

Mal-estar de Maio de 68 é ainda mais profundo hoje

Para o pensador francês, desesperança e descrença no progresso trazidas pelos anos 90 desamparam atual geração e a empurram para um presente sem sentido

O FRANCÊS Edgar Morin é um dos últimos grandes pensadores vivos. Filósofo, historiador e sociólogo, aos 87 anos se empolga ao falar dos movimentos estudantis atuais e diz que uma das maiores conquistas de Maio de 68 foi a afirmação da adolescência como entidade social autônoma. Mas o intelectual acredita que a crise moral que provocou o levante de 40 anos atrás é hoje muito mais grave porque o mundo, segundo ele, perdeu totalmente a crença num futuro melhor.

SAMY ADGHIRNI
ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE

Edgar Morin passou boa parte de sua trajetória intelectual defendendo a transdisciplinaridade, a idéia segundo a qual as ciências são complementares e o conhecimento só é válido quando colocado sob a luz da abrangência.
Convidado a abrir a segunda edição do ciclo de palestras "Fronteiras do Pensamento Braskem-Copesul", em Porto Alegre, Morin avisou que o tema de sua intervenção seria "1968-2008: o mundo que eu vi e vivi". Foi uma oportuna maneira de analisar os rumos da humanidade às vésperas do 40º aniversário da revolta francesa de Maio de 1968, o evento estudantil e operário que ultrapassou fronteiras, disseminando os valores que até hoje norteiam boa parte da modernidade ocidental. Horas antes da palestra, no último dia 14, Morin conversou por 40 minutos com a Folha no saguão de um luxuoso hotel da capital gaúcha. Os gestos frágeis e a voz definhante não condizem com o discurso vibrante e apaixonadamente engajado de um homem que dedicou a vida ao entendimento humano. Eis os principais trechos da entrevista.

FOLHA - Quarenta anos depois, o que ficou dos acontecimentos de Maio de 68?
EDGAR MORIN - 1968 foi, antes de mais nada, um ano de revolta estudantil e juvenil, numa onda que atingiu países de naturezas sociais e estruturas tão diferentes como Egito, EUA, Polônia... O denominador comum é uma revolta contra a autoridade do Estado e da família. A figura do pai de família perdeu importância, dando início a uma era de maior liberdade na relação entre pais e filhos.
A revolta teve um caráter mais marcante nos países ocidentais desenvolvidos. Teóricos achavam que vivíamos numa sociedade que resolveria os problemas humanos mais fundamentais. E, de repente, percebeu-se que havia uma insatisfação na parte mais privilegiada dessa sociedade, que é a juventude estudante. Jovens de classes privilegiadas que desfrutavam de bens materiais preferiram buscar uma vida comunitária, num sinal de que o consumismo da sociedade ocidental não resolvia os problemas e aspirações humanas. Muitos desses jovens trocaram a cidade pela vida com as cabras, em busca de felicidade. Esses grupos não duraram, porque não conseguiram resolver os problemas e conflitos -só perduram comunidades que têm o cimento religioso.
Mas o importante é que houve um processo de auto-afirmação da adolescência como entidade social e cultural. O rock, muito além da música, consiste em agrupamentos de jovens. É uma maneira de se vestir e se comportar. É a autonomização da adolescência, que se afirma por oposição ao mundo adulto dos professores e pais.
Depois disso, a poeira baixou e tudo pareceu voltar ao que era antes. Mas houve mudanças, sim. Foi depois de 68 que os homossexuais e as minorias étnicas se afirmaram e que o novo feminismo se desenvolveu. A imprensa feminina francesa pré-68 dizia: "sejam bonitas e façam uma boa comidinha para agradar aos seus maridinhos".
Depois de 68, essa mesma imprensa passou outro recado: "vocês estão ficando velhas, seus filhos foram embora e seus maridos as traem, então resistam". Foi uma verdadeira crise da idéia de felicidade, que é a grande mitologia da sociedade ocidental.

FOLHA - Um levante semelhante seria possível hoje em dia?
MORIN - Fatos históricos dificilmente se repetem, mas eu me pergunto se a comemoração de Maio de 68 não vai estimular jovens a seguirem o mesmo caminho. Na França, houve recentemente uma pseudo-reforma do ensino que despertou mais uma vez movimentos estudantis consideráveis. Claro, não tem nada a ver com Maio de 68, mas é alguma coisa.
Hoje em dia, movimentos estudantis se generalizam rapidamente e prosseguem mesmo quando o governo satisfaz os seus pedidos. É a alegria de estar juntos na rua, de desafiar os professores e a polícia. Até quando as reivindicações são ridículas, o fenômeno é importante, pois permite ao jovem tornar-se cidadão, escapando assim da crescente tendência ao apolitismo.

FOLHA - Mas o mal-estar que causou Maio de 68 permanece...
MORIN - Não só permanece, como agravou-se. Onde há vida urbana e desenvolvimento, há estresse e ritmos de trabalho desumanos. A poluição causa males terríveis, e nossa civilização é incapaz de impedir a criação de ilhas de miséria. Mas o que piorou mesmo foi o fato de termos perdido a fé no progresso. O mundo ocidental dava como certa a idéia de que o amanhã seria radioso. Mas, nos anos 90, percebeu-se que a ciência trazia também coisas como armas de destruição em massa e que a economia estava desregulada, enterrando de vez a promessa de que as crises haviam deixado de existir.
O sentimento de precariedade é agravado pelo fato de os pais não saberem se seus filhos terão um emprego. Tampouco há esperança vinda da esfera política. Os políticos hoje se contentam em pegar carona no crescimento econômico. Não bastasse a ilusão de que esse crescimento da economia resolveria os problemas, eis que agora impera a estagnação. O mal-estar está mais profundo, inclusive nas classes que têm acesso ao consumo. E quando não há mais futuro, a gente se agarra a um presente desprovido de sentido ou ao passado -nação e religião.

FOLHA - O senhor acredita no choque das civilizações?
MORIN - Parece cada vez mais grave a confrontação entre os mundos árabe-islâmico e ocidental. Mas isso não é um choque de civilizações, até porque boa parte do mundo muçulmano está amplamente ocidentalizada. O problema é que os países árabe-islâmicos estão tomados por um desespero ligado ao fracasso da democracia e do socialismo naquela região e à imensa corrupção trazida pelo capitalismo. Diante disso, parte da população torna-se ultra-religiosa e pensa que a salvação está numa interpretação integrista da sharia, a lei islâmica.
O choque das civilizações é uma profecia que se auto-realiza. Acreditar nela é estimulá-la. Além disso, islã, cristianismo e judaísmo têm um tronco comum. São fés monoteístas muito parecidas. Por isso me tranqüiliza saber que grandes civilizações como a China e a Índia tiveram a felicidade de escapar disso. Muitos males advêm dos monoteísmos.
Olhe o que acontece com a questão israelo-palestina. Nos dois lados impera cada vez mais a visão religiosa de um problema fundamentalmente nacionalista. Repare na força dos evangélicos nos EUA, berço da sociedade mais materialista do mundo e onde a teoria do criacionismo não pára de se espalhar. Tudo isso é uma grande regressão. Não acredito no choque das civilizações, acredito na volta da barbárie em suas mais diversas formas.

FOLHA - Uma das maiores mudanças mundiais das últimas décadas, a internet, na sua opinião, afastou ou aproximou as pessoas?
MORIN - Se considerarmos o fato de a internet ser um instrumento polivalente, que serve até aos interesses do crime, acho que a rede aproxima as pessoas. A internet tornou-se um sistema nervoso artificial que tomou conta do planeta. É algo que ajuda muito na hora de desenvolver afinidades, encontrar amigos, amores ou parceiros de hobby. A internet é um fato universal importantíssimo.
Mas os sistemas de comunicação não criam compreensão. A comunicação apenas transmite informação. É preciso estimular o surgimento de uma consciência planetária. Se a internet não desenvolver a idéia da comunidade de destinos da humanidade, terá apenas uma função limitada e parcelar.

FOLHA - Que papel restou para o intelectual hoje?
MORIN - O intelectual é alguém que toma a palavra em público para levantar problemas fundamentais. Infelizmente, os intelectuais foram levianos quando se tornaram stalinistas ou maoístas. Eles enganaram as pessoas.
Por outro lado, é ruim quando nos deparamos com um mundo entregue a peritos, especialistas e economistas, que são incapazes de enxergar a abrangência dos problemas essenciais e globais.
Intelectuais são necessários, mesmo quando eles se enganam. Quanto mais o mundo acha que não precisa deles, mais eles fazem falta (risos).

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Perfil

Autor tem trajetória humanista
DO ENVIADO A PORTO ALEGRE

A obra de Edgar Morin, que influenciou muitos intelectuais brasileiros, gira em torno da idéia da complexidade do mundo e do ser humano - complexidade no sentido etimológico da palavra "complexus", que significa "costurado junto".
Morin defende a interdependência das ciências e não vê problema em introduzir elementos de metafísica em sua racionalidade discursiva.
Autor de mais de 50 livros, doutor honoris causa por 18 universidades pelo mundo, Morin é também um militante político comprometido com a defesa da humanidade.
Nascido numa família judia sefardim (embora se considere ateu), o parisiense Edgar Nahoum - seu verdadeiro nome - abandonou os estudos na Sorbonne em plena Segunda Guerra Mundial (1939-45) para integrar a resistência contra a ocupação nazista. No contrapé da euforia pós-guerra, o já autobatizado Morin decidiu escrever sobre o sofrimento do povo alemão.
Nos anos seguintes, Morin iria se tornar um ícone da esquerda, mesmo sendo expulso do Partido Comunista francês. O judeu Morin defende os palestinos contra a ocupação israelense e não se cansa de denunciar os extremismos religiosos, políticos e nacionalistas. (SA)

Frases:

"O que piorou foi o fato de termos perdido a fé no progresso. O mundo ocidental dava como certa a idéia de que o amanhã seria radioso. Mas, nos anos 90, percebeu-se que a ciência trazia também coisas como armas de destruição em massa e que a economia estava desregulada, enterrando a promessa de que as crises haviam deixado de existir"

"O choque das civilizações é uma profecia que se auto-realiza. Acreditar nela é estimulá-la. Além disso, islã, cristianismo e judaísmo têm um tronco comum. Por isso me tranqüiliza saber que grandes civilizações como a China e a Índia tiveram a felicidade de escapar disso. Muitos males advêm dos monoteísmos"

O ditirambo semanal







"Em circunstâncias pacíficas, o homem guerreiro investe contra si mesmo." - Ditos e Interlúdios - Além do Bem e do Mal - Friedrich Nietzsche

Tenhamos uma bela semana

domingo, 27 de abril de 2008

Tapejara, o último guasca


Para embelezar o domingo


[Foto e legenda surrupiadas do Blog do Noblat]

O fotógrado russo Philippe Halsman tinha vocação por fotos inusitadas. Costumava retratar o mestre do surrealismo Salvador Dali. Hoje seria fácil fazer a foto "Dali Atomicus" (1948). Na época, porém, Halsman só pôde contar com a ajuda da mulher e de quatro assistentes. Três assistentes jogaram os gatos, um outro jogou a água, e sua esposa a cadeira. Depois de 26 tentativas e cinco horas de trabalho, ele chegou ao resultado conhecido hoje em todo o mundo. (Com colaboração de Catharina Mafra)

sábado, 26 de abril de 2008

Para quem ainda não leu - I


Estilo é fundamental

Américo Izidoro Ricardi foi meu padrasto-pai por uma década e meia. Conheci-o em 1974, quando eu e minha avó largamos Sant’Anna do Livramento e o fantástico casarão da APAE para retornarmos a Porto Alegre. Fui morar com a minha mãe e, por extensão, com Américo. Ele mantinha a roupa impecável. Ternos sob medida, camisas sedosas e sapatos reluzentes. Lançava moda. Foi, imagino, o primeiro a adotar na capital gaúcha o traje safári, aquele mesmo. Tinha quatro. Também arrojava nos carros. Dizia ter sido piloto. Se de autorama ou corrida, eu nunca soube, mas dirigia muito bem.

Américo era carismático. Conquistava fácil as pessoas. Contava ser amicíssimo do Leonel Brizola, embora o caudilho gaúcho desconhecesse. E assim muitas outras personalidades.Américo Izidoro Ricardi era misterioso. A cada ano sumia durante dois meses. Tomava as bandas do Mato Grosso, onde jurava ter terras pela região do Rio Araguaia. Retornava de lá com maços de dinheiro e abarrotado com flechas e cocares. Várias vezes procurei escalpos, mas não achei. Passei a considerá-lo o Tex Willer brasileiro, amigo das tribos amazônicas. Um dia apareceu com um título nobiliárquico obtido por lá. Comendador Américo. Bom, a partir daí assegurava possuir sangue azul, a mesma cor dos olhos e do time do coração. Passou a apresentava-se sempre assim: “Prazer, comendador Américo Ricardi”. Talvez se sentisse, e fosse, um maçom poderoso.

Américo Izidoro Ricardi era exagerado. Nas paixões, no amor, na bebida, no fumo, na comida e nos gastos. Nas épocas dos bolsos cheios, geladeira sob o regime da raiz quadrada. Adorava esbanjar. Bebia uma garrafa de Old Eight – o melhor naquele tempo, pelo menos para ele - por dia e deixava um J&B na reserva para as visitas ou para o próprio. Duas carteiras de Pall Mall diárias e pacotes na despensa. Nos tempos das vacas magras, fazia leves adaptações à situação financeira, como trocar – momentaneamente – o uísque pelo Velho Barreiro, mas mantinha a quantidade e a altivez. “Sempre sombrio e sólido”, como adorava repetir, após a quarta dose ou terceiro copo. Quando apaixonado por alguém, nossa! Pela minha mãe, sem comentários, era doente. Pelos outros, quase. Chorou copiosamente no percurso do translado do corpo do Tancredo Neves e no enterro do político mineiro, em 24 de abril de 1985. Soluçava. Quase uivava agarrado nas almofadas do sofá ou em pé enquanto servia o panelão com comida suficiente para alimentar o povo brasileiro da época. Havia se encantado pelo então presidente da República eleito pelo colégio eleitoral. “O nosso presidente, o nosso presidente”, proclamava e fungava, sem parar.

Américo Izidoro Ricardi era solidário. Mantinha conta no armazém próximo da nossa casa – providência para os tempos do recesso financeiro. Fingia nem dar bola para a quantidade das anotações. Apenas fingia. Naquela época eu morava no mesmo edifício, porém noutro apartamento, com a minha irmã e o marido dela. Sem dinheiro, apelava à caderneta para fazer lambanças com o recém-amigo Luis Gomes, colega da faculdade de história da PUCRS, e seus dois companheiros do apartamento da Sarmento Leite, na Cidade Baixa: o Paulo Magro e o Totô. Todos estudantes e duros. Eu comprava miojo e uma garrafa de cachaça, sem esquecer dos limões. Toda sexta, o desfalque. Um dia, o Américo me chamou. Pronto, pensei, acabou a fonte. Ele tinha à mão páginas da caderneta. Olhou bem para mim e perguntou: “É tudo teu?”. “Sim”, respondi. “Pra quê?” “Para ajudar meus amigos.” “Então faz o seguinte: troca o miojo por massa mesmo, porque rende e alimenta mais, e leva também bolacha e uma carne de vez em quando”, aconselhou o sábio erechinense. “Na vida, o importante é ter estilo”, completou.

Estilo. Sim, estilo. Tenhamos estilo, sempre, como tinha o grande comendador Américo Izidoro Ricardi.

Para quem ainda não leu II




Eu, minha avó, nosso castelo e as cavernas da alma

Nos domingos as almas inquietas flanam. A minha, por exemplo, pulou o muro e enveredou pelo túnel do tempo. Parou no castelo onde morei por quatro anos. Sim, já residi num castelo. Eu e minha avó, Maria Araújo Nunes. Entre 1970 e 1973 cuidamos do casarão da APAE em Sant’Ana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. Maria Aparecida Nunes Ronchi, por sinal minha tia, presidia a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais e nos acomodou naquela casa antiga e misteriosa.Na parede maior da imensa sala central vivia um contrabandista e pirata. Ou seria pirata contrabandista? Tanto faz. Ali ele fora emparedado com suas riquezas.

Receosos em incomodá-lo ou de não saber como lidar com tamanha fortuna, o deixávamos em paz, embora nas noites mais frias do gélido inverno pampiano ouvia-se o murmúrio em sotaque esquisito, metade espanhol, metade siciliano. “Acendam a lareira”, suplicava a voz. No sótão, outro inquilino de vez em quando também importunava, mas somente nas noites de lua cheia. Aí sim, os gatos arrepiavam-se, as ninhadas sumiam e dormir tornava-se suplício. Latidos da cachorrada dum lado e os uivos do lobisomem do outro.

No mais, durante as outras fases lunares reinava a calmaria. O casarão - ou melhor, o meu castelo – me ensinou para a vida. A vida, aliás, escalava os nossos times do futebol no pátio. Crianças sem quaisquer movimentos ou condições de jogar formavam a torcida. Os cadeirantes revezavam-se na posição do goleiro, com a justa proibição dos chutes bem rasteiros ou muito altos. À zaga destinavam-se os fortes, em geral os portadores de Síndrome de Down robustos. No ataque, os desmilingüidos e magricelas serelepes. Tornei-me centroavante. E um apóstolo das diferenças. Para sempre.

Com elas aprendi a filosofia da matemática e a da existência. Foi por acaso. Estava naquela pequena sala quando a jovem professora perguntou a um garoto ceifado de muita coisa por causa da paralisia infantil quanto era 1 + 1. Onze, gesticulou o menino. Claro. Dois é igual a 11. Uma dupla é um time. Eis o princípio da solidariedade, da cumplicidade. Lá, no próprio castelo, vivi isto. Com o escasso dinheiro oriundo da pensão da minha avó comprávamos uma portentosa galinha assada e ninguém passava fome. Quem precisasse de dinheiro ela ainda emprestava. Sem juros.

Maria Araújo Nunes, por sinal, era uma filósofa. Certa feita um pesadelo me deixou sobressaltado. Havia me perdido em uma caverna escura. Ela acalentou-me e profetizou: “Meu filho, não tenha medo de nada, porque cavernas mais profundas ainda fazem parte da nossa alma”. Dormi. Benção, vó, para esta alma inquieta. Saudade.

Viajaram na batatinha


CASO ISABELLA

O delírio da cobertura

Por Alberto Dines em 25/4/2008

O caso da morte da menina Isabella Nardoni já deixou de ser um espetáculo mórbido, uma novela de apelativo mau gosto, para se tornar uma superprodução do gênero. Aqueles que ainda esperavam um sinal de racionalidade no trato público da tragédia achavam que já tinham visto de tudo.
Pois tem mais: a polícia teve que pedir ao ministério da Aeronáutica que fechasse o espaço aéreo na região norte da cidade de São Paulo para evitar riscos com o congestionamento de helicópteros das emissoras de televisão e de rádio que pretendem cobrir ao vivo a reconstituição do crime, marcada para domingo (27/4).
Não tem limites o delírio da mídia no caso Isabella. Agora nossos paparazzi inventaram uma versão aérea de sensacionalismo: pretendem filmar de helicóptero a reconstituição do crime no próximo domingo. A polícia pediu à Aeronáutica para interditar o espaço aéreo. A Aeronáutica recusou: o pedido da polícia civil não se enquadra em nenhuma das diferentes situações que justificariam a interdição.
A Aeronáutica tem razão, mas a polícia também tem razão: se as quatro redes de TV colocarem helicópteros em torno do edifício, além da perturbação que isso causará naquela parte da cidade, podemos ter o caos nas alturas ou mesmo uma colisão aérea.
O caso Isabella deixou de ser uma tragédia, também deixou de ser jornalismo, sequer é circo. Reduziu-se a uma brutal exibição de morbidez como há muito tempo não víamos. Retrato da nossa mídia e retrato das necessidades daqueles que consomem nossa mídia. É um horror.

Prêmio José Reis

O Prêmio é atribuído em três modalidades com periodicidade anual, em sistema de rodízio.
Em 2008, a modalidade é JORNALISMO CIENTÍFICO.

Jornalismo Científico: premia os jornalistas profissionais especializados na cobertura e divulgação dos resultados e avanços em Ciência, Tecnologia e Inovação.
Premiação: importância em dinheiro, no valor de R$10.000,00, diploma e passagem aérea e hospedagem para permitir que o agraciado participe da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)


Outras modalidades contempladas:

Modalidade Instituição: que premiará a instituição ou veículo de comunicação coletiva que tenha tornado acessível ao público conhecimentos sobre Ciência e Tecnologia e seus avanços.
Premiação: Diploma e troféu a instituição ou veículo de comunicação agraciado; .Passagem aérea e hospedagem para permitir que o dirigente da instituição ou do veículo de comunicação agraciados participe da solenidade de entrega do Prêmio na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC.

Divulgação Científica: destinada aos pesquisadores e escritores que, além de publicarem os resultados de seus trabalhos em periódicos científicos, escrevem artigos para veículos de comunicação de massa com uma linguagem mais acessível, difundindo o conhecimento para o público leigo.
Premiação: importância em dinheiro, no valor de R$10.000,00, diploma e passagem aérea e hospedagem para permitir que o agraciado participe da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

DAS INSCRIÇÕES
Art. 6º - As inscrições poderão ser efetuadas pelo próprio candidato, por seu representante legal, ou por indicação de dirigentes de entidades públicas ou privadas.
Art. 7º - A documentação necessária para se candidatar ao Prêmio é a seguinte:
A) Ficha de inscrição preenchida;
B) Cópia do registro de jornalista do MTb;
C) Currículo atualizado na Plataforma Lattes;
D) Justificativa em que se evidencie significativa contribuição à divulgação científica;
E) Trabalhos mais importantes (cópias).
Art. 8º - As inscrições consideradas incompletas serão devolvidas.
Art. 9º - As inscrições deverão ser encaminhadas ao CNPq – Serviço de Prêmios - SEPN 507 - Bloco B, Sala 203, Brasília, DF, 70740-901, até 16 de maio de 2008. Parágrafo Único - As inscrições enviadas fora do prazo não serão aceitas. Vale o carimbo dos Correios.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Direto da Suécia


Cartas de Estocolmo


Por Sandra Paulsen



Por essas coincidências da vida, o assunto obrigatório do momento na Suécia inteira é o assassinato de Engla, uma menina de 10 anos de idade, desaparecida a 600 metros de casa, aonde chegaria em menos de 5 minutos pedalando sua bicicleta. Há duas semanas, no caminho de casa, Engla encontrou-se com Anders Eklund, criminoso já conhecido da polícia e cinco vezes condenado pela justiça por tentativas de estupro e outros abusos sexuais. Eklund é agora assassino confesso de Engla e de uma moça nos seus trinta anos, Pernilla, morta há oito anos no interior do país, caso este que até agora não tinha solução. Uma denúncia há dois anos havia apontado Eklund como possível assassino de Pernilla. Mas a polícia – não se sabe por que - nunca fez o teste de DNA sugerido. Se o tivesse realizado, provavelmente Engla estaria viva.


O possível erro policial, assim como as técnicas usadas nos interrogatórios, no caso Engla e em outros de crimes famosos, são agora tema obrigatório dos jornais e de programas de TV aqui.
Pensei no caso Isabella, é claro, que por sua vez traz à lembrança o caso Bobby, quando um menino de dez anos foi torturado e morto pela mãe e pelo companheiro desta, há um par de anos, perto de Gotemburgo.

Aparentemente, essas coisas horríveis ocorrem em qualquer lugar. Parece, no entanto, que é ainda mais difícil aceitá-las quando envolvem pessoas de posses, que tiveram acesso a educação, que não estão passando necessidades materiais, que contam com todas as oportunidades para levarem uma vida “normal”. Na sua maior parte, os casos aqui costumam envolver problemas psíquicos e doenças mentais.

É o que eu imagino que poderia explicar o caso Isabella. Não posso crer na maldade pela maldade. As pessoas envolvidas devem ter algum desequilíbrio psíquico, algum grave problema mental, alguma falha moral séria. E nesses casos, as técnicas para interrogar suspeitos parecem ter um papel-chave na solução dos crimes. A mãe de Bobby, por exemplo, decidiu desabafar e contar toda a história, depois de dias negando seu envolvimento. Segundo uma reportagem no jornal Svenska Dagbladet, a policial encarregada do interrogatório conta que se sentou ao lado dela, segurando suas mãos, enquanto escutava a confissão.

Na reportagem, destaco o comentário da policial quando diz que, independentemente do crime, ela jamais sente ódio do criminoso: “É preciso distinguir entre o crime, repugnante, e a pessoa que o cometeu, um ser humano em crise”. No caso de Engla, uma dupla de exímias interrogadoras não levou mais de uma hora para obter a confissão não só de um, mas de dois assassinatos.


Na TV, multiplicam-se as análises do comportamento do assassino confesso de Engla, das falhas da polícia e, especialmente, do sistema penal sueco que deixa solto um criminoso sexual em série. Pessoalmente, sempre achei um absurdo que um estupro, aqui, possa ser penalizado com apenas dois anos de cadeia, e que uma pessoa como Eklund possa andar solto por aí cometendo mais crimes hediondos. Mas isso é assunto para outro texto.

Só torço para que os assassinos de Isabella, quem quer que eles sejam, decidam confessar logo o seu crime. Quem sabe um par de policiais do sexo feminino, agindo com empatia, possa ajudar?
Todos nós sabemos, quando cometemos um erro, como uma confissão, um reconhecimento e um pedido de perdão aliviam a consciência e nos permitem seguir em frente. Espero que a confissão, no caso Isabella, venha logo, para acabar com o suplício. O dos criminosos, o da mãe da menina, e o de todos nós, incapazes de entender e aceitar o ocorrido.

Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A imagem da semana / Cena I - Ícaro sobe


A imagem da semana II - e Ícaro some


Foto tirada pelo Grupo de Radiopatrulhamento Aéreo de Joinville (GRAER/SC) na busca do padre Adelir Antônio de Carli, o ícaro paranaense.

On peut se revoir, Paris


PREPARAÇÃO DO ANO DA FRANÇA NO BRASIL

Para aqueles que têm interesse em apresentar um projeto para o Ano da França no Brasil, FRANÇA.BR2009, que ocorrerá de 21 de abril a 15 de novembro de 2009, acessem o site brasileiro listado abaixo e dêem o download da ficha para proposição oficial de projetos em português. As fichas para projetos culturais que necessitam de apoio do governo deverão fazê-lo da forma usual disponibilizada pelo ministério através do link:http://www.cultura.gov.br/site/?cat=30.

Já aqueles projetos que não necessitarão de apoio e/ou são de categoria não cultural deverão dar o
download do formulário disponibilizado no link abaixo do Ministério da Cultura. Os interessados em adquirir a versão francesa das fichas para projetos culturais e não culturais, a serem preenchidas por seus parceiros franceses, favor entrar em contato conosco solicitando-as pelo e-mail sec.scac@pbh.gov.br.

Esse formulário deve ser apresentado, no mais tardar até o dia 15 de Maio de 2008, aos dois comissariados, o francês e o brasileiro. A próxima comissão mista para aprovação de projetos ocorrerá ao final de Maio no Rio de Janeiro. Os projetos que forem chancelados pela comissão mista estarão inscritos na programação oficial do Ano da França no Brasil, beneficiando-se
assim de toda repercussão midiática.

Para os projetos que possam nos interessar, favor enviar-nos uma cópia preenchida dos formulários de apresentação de projeto, em francês e em português.

Boa sorte e permanecemos à sua disposição para quaisquer esclarecimentos.
Para saber mais sobre ano da França no Brasil e adquirir as fichas de proposição de projetos visite:

http://www.cultura.gov.br/franca_br2009/

http://www.culturesfrance.com/evenement/En-2009-une-Annee-de-la-France-au-Br
esil/evpg530.html

Atenciosamente,

Sylvie Debs, Adida de Cooperação e Ação Cultural

Contato: Christine Veras - sec.scac@pbh.gov.br

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Jornalismo com direito a banheiro químico


MÍDIA E POLÍCIA

Se o pão é pouco, aumente-se o circo

Por Carlos Brickmann - Observatório da Imprensa - em 22/4/2008

Já se falou, sobre o caso, do filme A montanha dos sete abutres [ver aqui]; lembremos agora o imortal samba De frente pro crime, dos grandes João Bosco e Aldir Blanc.

Diante do corpo estendido no chão, "o bar mais perto depressa lotou/ malandro junto com trabalhador/ um homem subiu na mesa de um bar/ e fez discurso pra vereador".

A menina Isabella, 5 anos, morreu estendida no chão, atirada pela janela de um prédio. O crime comoveu São Paulo; a audiência dos telejornais subiu 46%. E, na guerra de audiência, vale tudo: vale provocar comoção popular, vale juntar multidões em frente à casa dos parentes da menina morta, vale dizer o horário em que o tio da prima da vizinha do porteiro almoçou, vale transformar tudo em espetáculo. Sigilo do processo? Besteira: as autoridades devem estar roucas de tanto dar entrevistas. Chegou-se ao extremo de providenciar banheiros químicos e uma tenda, gastando dinheiro público, para atender à multidão de curiosos que se aglomeraria em frente ao local onde dois suspeitos prestariam depoimento.
"Veio um camelô vender pastel/ cordão, perfume barato/ E a baiana pra fazer pastel/ e um bom churrasco de gato/ Quatro horas da manhã, baixou/ um santo na porta-bandeira/ e a moçada resolveu parar, e então/ tá lá o corpo estendido no chão."

Há tempos, em algum lugar do país, num desses casos rumorosos, um advogado procurou o delegado que tomaria o depoimento de seu cliente e lhe perguntou se era possível comparecer à delegacia sem alarde, sem multidões. O delegado disse que não: recebera ordens "de cima", para avisar o horário do depoimento, e permitir que os "de cima" chamassem imprensa e multidão. As autoridades se aliam à imprensa para transformar a investigação em show, a punição dos culpados em linchamento, a Justiça em espetáculo. Instiga-se a população a descrer do processo judiciário democrático e a pedir justiça com as próprias mãos.

Quem matou Isabella? Há dois suspeitos e uma certeza: se a investigação não seguir os caminhos corretos, legais, discretos, com coleta de provas, com a construção precisa e científica da acusação, será difícil ter a resposta. Afinal de contas (e isso se sabe desde o episódio de um certo Barrabás, ocorrido há muito tempo, quando nenhum de nós havia ainda nascido) berreiro nas ruas não é justiça.

Prender, condenar
Autoridades e imprensa formam, nesse tipo de caso, um casal inseparável: um não existe sem o outro. A TV não pode viver exclusivamente das informações sobre o cardápio do café da manhã do tio de um dos suspeitos; precisa de autoridades prestando declarações indignadas. As autoridades precisam da imprensa para aparecer na TV e nos jornais, para desfrutar os instantes de fama, para ganhar prestígio junto aos escalões superiores. E, enquanto um desfruta do outro, esquece-se o importante: a juntada de provas. Depois, quando o acusado é absolvido, vem aquela conversa surrada de que a polícia prende e a Justiça solta. Não é bem assim: não há juiz que deixe de condenar se houver provas concretas.

A voz do advogado
Texto sobre o caso Isabella, publicado no portal Migalhas, na segunda-feira (14/4), assinado pelo advogado Edgard Silveira Bueno Filho, do escritório Lima Gonçalves, Jambor, Rotenberg & Silveira Bueno:
"Não sou advogado criminalista. Não tenho qualquer interesse no caso, mas não consigo não me indignar com esses abusos que são cada vez mais freqüentes em nosso país. Temos que nos decidir se somos ou não somos um estado de direito que, antes de julgar as pessoas, deve observar o devido processo legal. Senão, é o caso de voltarmos ao estágio da vingança e do apedrejamento em praça pública. Mas não reclamemos quando a vítima vier a ser um de nós."

O caso Cabrini
Culpado ou inocente?
Se este colunista soubesse a resposta, todo o pessoal da polícia que se dedica à investigação e elucidação de crimes poderia aposentar-se e ficar em casa. E o problema, numa coluna dedicada a comentários sobre a imprensa, é outro: é o que está sendo divulgado sobre o caso do jornalista Roberto Cabrini.
Há muita coisa esquisita na história. Primeiro, tudo o que este colunista já leu sobre drogas indica que pessoas de bom poder aquisitivo não vão a locais perigosos para fazer suas compras: têm o privilégio de recebê-las a domicílio, entregues por pessoas bem-vestidas e de aparência insuspeita. Segundo, não compram drogas "picadas", mas em quantidade suficiente para algum tempo de consumo. O livro de Nélson Motta sobre Tim Maia, por exemplo, em várias passagens faz referências a sacolinhas de cocaína, a pacotes (ou latas) de maconha.

Terceiro, a história do carro. Tudo bem, um belo automóvel importado num lugar estranho merece investigação. A polícia se aproxima, o dono do carro mostra seus documentos em ordem, diz que está lá por livre e espontânea vontade, não há ninguém por perto a ameaçá-lo. Por que, então, revistar o carro?

A história de Cabrini também é curiosa. Pode ser que, para conquistar a confiança do tráfico, tenha cheirado alguma coisa. Às vezes acontece. Aliás, se fosse viciado, teria a saída pronta: sou viciado, sim, preciso de ajuda e tratamento, não tive a coragem de fazê-lo até agora por ser uma pessoa pública, e peço que os sacerdotes da Igreja Universal, ligada à Rede Record, me ajudem a sair deste problema. Ao não optar por essa solução, Cabrini mostrou a confiança que tem em sua história.

O que se espera é que a imprensa, no caso do colega, se comporte como se fosse uma pessoa de outro ramo: acompanhe as investigações, noticie, comente, sem a preocupação de atingir um concorrente ou de beneficiar um companheiro. E, claro, sem deixar que a eventual inveja do colega que ganha bem e tem notoriedade influencie a cobertura. É difícil; mas o próprio caso de Pimenta Neves, jornalista bem pago e bem sucedido, que matou a ex-namorada, mostra que a imprensa é capaz de noticiar seus problemas com correção e isenção.

Como é mesmo?
Tudo saiu na mesma notícia, num respeitado portal da internet:
Título: "PF apreende mais 6 PCs da Casa Civil"
Texto (parte 1): "A Polícia Federal apreendeu na tarde desta terça-feira (8) sete computadores na Casa Civil da Presidência da República."
Texto (parte 2): "Segundo a PF, foram apreendidos cinco computadores portáteis e um de mesa."
Pode chamar os universitários: quantos computadores foram apreendidos? Por enquanto, o 6 está ganhando do 7 por 2x1.

D’além túmulo
Texto publicado num grande jornal: "Em 1993, foi a vez de Courtney Love e Kurt Cobain (morto, ex-vocalista do Nirvana) passearem pelo lobby".
Dizem que o falecido até hoje aprecia muito o local.

E eu com isso?
Caro colega, o mundo está por demais complicado. Assaz complexo. Tem autoridade querendo ser popstar, tem coleguinha que já é popstar querendo ser autoridade, coisa muito chata. Mas temos notícias absolutamente necessárias, essenciais, que com certeza farão de nosso dia-a-dia algo muito diferente. Por exemplo:
1. "Grávida de seis meses, Nicole Kidman sofre de enjôos matinais"
2. "Amy Winehouse não é uma boa babá"
3. "Victoria Beckham é flagrada em supermercado de Beverly Hills"
Esta é de cocheira: sabem o que é que ela estava fazendo? Compras!

O grande título
Coisas finas, coisas finas. Comecemos com um título da seção de Gastronomia de um jornal conhecido, de grande circulação:
** "Carne de temperamento difícil e sabor agradável"
Esclarecer que a notícia está na seção de Gastronomia é essencial. Sem esse esclarecimento, que é que nosso leitor poderia pensar? Mas não é nada disso, não: trata-se de uma referência a costelinhas de cordeiro.

O próximo é da seção de Ciências, área de Medicina Popular:
** "Chifre pode matar se virar afrodisíaco"
De novo: se não tivéssemos esclarecido a seção em que saiu esse título, que é que o leitor poderia pensar?

E temos a obra-prima da semana:
** "Salsichas octogenárias no subsolo de metrô apetitam"
Um dia alguém certamente o explicará.

terça-feira, 22 de abril de 2008

TROFÉL IMPRENÇA da semana - categoria Necessidades Especiais


O Correio de São José dos Pinhais (PR):

Cardápios em Braile

Surdos poderão escolher seus pratos e bebidas nos restaurantes da cidade.

242 códigos de ética em revista


Mas, afinal, o que é liberdade de imprensa?

Marcos Palacios - GJOL

Itai Himelboim (University of Minnesota) e Yehiel Limor (Ariel University Center, Israel) tentam responder a essa pergunta através de uma análise de 242 códigos de ética jornalisticos, de 94 países. Foram analisados documentos produzidos por empresas de comunicação, conselhos de comunicação e sindicatos de jornalistas. O estudo retraça a bibliografia e os estudos clássicos no assunto, começando com o On Liberty , de John Stuart Mill, de 1859. Através da análise dos 242 códigos incluídos no estudo, pretende-se investigar três questões básicas:

1. A liberdade de imprensa é um valor incluído em códigos de ética? Em caso positivo, como?

2. Existem diferenças na maneira de se abordar a questão em códigos de ética de países com diferentes características político-econômicas?

3. Existem diferenças de abordagem dependentes do tipo de organização para a qual o código de ética foi redigido?

O estudo está publicado no mais recente número da revista Journalism (Vol. 9, No. 3, 235-265:2008), disponível no Brasil para as instituições afiliadas via Portal de Periodicos da Capes.

Levantamento para a vida toda



Site brasileiro quer mapear crimes no mundo

Um professor universitário brasileiro criou um site na internet para mapear a ocorrência de crimes em todo o mundo, com base em informações das próprias vítimas.
O wikicrimes.org, criado pelo professor cearense Vasco Furtado, é um portal com mapa interativo onde as pessoas podem registrar crimes e, com isso, ajudar a identificar zonas com maior índice de criminalidade.
Furtado acredita que seu projeto pode ajudar a população brasileira a mapear as áreas mais perigosas do país. Segundo ele, o Estado no Brasil “monopoliza” a informação sobre os delitos e os números são questionados.
Além disso, muitas pessoas acreditam que não adianta reportar alguns crimes à polícia. “Cerca de 50% de alguns tipos de crimes não são denunciados”, afirma Furtado.
“É uma forma que permite à população declarar ‘esta região é perigosa, aqui ocorrem crimes’. A informação é para o cidadão, que é quem decidirá o que fazer com os dados que considere relevante”, explica Furtado.
A estatística publicada no site na manhã desta terça-feira mostrava 615 casos registrados em Fortaleza, 66 no Rio de Janeiro, 64 em Campo Grande e 38 em São Paulo.
Furtado acredita que estas informações fornecidas poderiam ser complementadas com dados policiais. No entanto, o professor disse à BBC que já convidou autoridades a colocar dados na página, mas não recebeu nenhuma resposta.
O departamento de Polícia Civil do Rio de Janeiro afirmou à BBC que tem a preocupação de “não revelar dados que possam restringir” o seu trabalho. Além disso, quer evitar criar uma sensação de insegurança à população.
Não há como comprovar as informações publicadas no site, que depende da boa fé dos seus usuários. Para “denunciar” crimes na página, basta se cadastrar como usuário do site e clicar no lugar onde ocorreu o crime. Algumas informações serão solicitadas como dia e hora do crime, número de pessoas envolvidas e testemunhas.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Trabalhos para GT de jornalismo da ALAIC


Chamada para o GT Periodismo da ALAIC


Caras e caros:


Estão abertas as inscrições de trabalhos para o IX Congresso da Associação Latinoamericana dos Pesquisadores da Comunicação (http://www.alaic.net/), que vai comemorar os 30 anos de entidade. O congresso vai acontecer de 9 a 11 de outubro no campus do Itesm localizado na região metropolitana da Cidade do México. Os trabalhos, com texto completo, serão recebidos até 10 de agosto. As inscrições para o GT Jornalismo podem ser feitas aqui.
Espero vê-los lá.

Um grande abraço,

Eduardo MeditschCoordenador do Grupo Temático Estudios sobre Periodismo - Alaic

O ditirambo semanal


As pirâmides - Jacques Resch



"A loucura é algo raro em indivíduos - mas em grupos, partidos, povos e épocas, a regra." - Ditos e Interlúdios - 156 - Além do Bem e do Mal (1886) - Friedrich Nietzsche

Leitura da semana

A revista Homem Vogue que chega às bancas nesta semana traz um ensaio com a atriz Rosane Mulholland, que poderá ser vista também em quatro filmes até o final do ano, entre eles Falsa Loura. Brasiliense de 27 anos, Rosane formou-se em Psicologia na UnB, da qual seu pai, Timothy Mulholland, foi reitor até renunciar devido aos escândalos dos gastos para decorar o apartamento funcional.

domingo, 20 de abril de 2008

Jornalismo fantástico de porta de cadeia


Frios e dissimulados

Pai e madrasta mataram Isabella, numa seqüência deagressões que começou ainda no carro, conclui a polícia

Juliana Linhares - Veja

O "monstro" que matou a menina Isabella e que seu pai, Alexandre Nardoni, em carta divulgada à imprensa, prometeu não sossegar até encontrar estava, afinal, diante do espelho. E a mulher, que também em carta afirmou ser a criança "tudo" na sua vida, ajudou a matá-la com as próprias mãos. Tal é a conclusão a que chegaram os responsáveis pelo inquérito policial que apura o assassinato de Isabella Nardoni, de 5 anos, ocorrido no dia 29 de março. A polícia está convencida de que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá combinaram jogar Isabella pela janela na tentativa de encobrir o que supunham já ser um assassinato. Para os investigadores, Anna Carolina Jatobá asfixiou Isabella ainda no carro, no trajeto entre a casa dos pais dela e o apartamento da família. A menina ficou inconsciente e o casal achou que ela estava morta. Na sexta-feira, vinte dias depois da morte de Isabella, Nardoni e Anna Carolina foram indiciados por homicídio doloso e co-autoria de homicídio. A investigação que culminou no indiciamento do casal foi realizada por investigadores do 9º Distrito Policial de São Paulo. Ela não ficou a cargo da Delegacia de Homicídios porque se achou por bem manter no caso os policiais que a iniciaram. Com isso, ganhou-se em precisão. "Fizemos um trabalho sem pressa e sem pressão, privilegiando o aspecto técnico do caso", diz o delegado Aldo Galiano, diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap).

Não se sabe ainda o que motivou o crime, mas é certo que a brutalidade a que Isabella foi submetida no dia de sua morte teve início mais cedo do que se pensava até agora. Por volta das 21 horas do dia 29 de março, poucas horas depois de Nardoni e a mulher, aparentemente tranqüilos, terem sido filmados com os filhos fazendo compras em um supermercado de Guarulhos, a família compareceu a uma festa no salão do prédio onde moram os pais de Anna Carolina. Isabella correu e brincou na companhia de outras crianças, conforme imagens registradas por uma das dezesseis câmeras instaladas no edifício. Em determinado momento, como disseram à polícia testemunhas presentes à festa, a menina fez algo que enfureceu o pai. Nardoni, então, gritou com ela e lhe deu um safanão. Isabella caiu no chão e começou a chorar. Nesse momento, Nardoni, segundo as testemunhas ouvidas pela investigação, disse à filha: "Você vai ver quando chegar em casa". A ameaça começou a ser cumprida já no carro. No assoalho e no banco de trás do Ford Ka de Nardoni, a polícia encontrou marcas de sangue compatíveis com o de Isabella. Segundo os investigadores e os peritos, ela foi espancada e asfixiada pela madrasta no interior do veículo. Como sangrava ao chegar ao prédio, o casal usou uma fralda de pano para embrulhar e levar a menina desacordada até o apartamento, evitando, assim, que o sangue pingasse no chão da garagem e do elevador. No apartamento, o casal discutiu sobre o que fazer com Isabella. Por acreditarem que ela estava morta, ambos chegaram à decisão de simular um assassinato cometido por um invasor. O rosto sujo de sangue da menina foi limpo com uma toalha. Nardoni, então, cortou a tela de proteção da janela de um dos quartos e arremessou a filha para a morte. Quando foi lançada, Isabella estava viva, em estado de letargia por causa da asfixia sofrida no carro. Em seguida, o casal deu início a seu espetáculo de frieza e dissimulação.

Alexandre Nardoni, de 29 anos, sempre teve uma vida confortável. Quando era estudante de faculdade, tinha um Vectra último modelo, comprado pelo pai, e uma moto esportiva Honda CBR 900 RR (hoje avaliada em 60 000 reais). Era dono de uma concessionária de motos e fazia estágio no escritório do pai, o advogado tributarista Antonio Nardoni. Apesar de ter se formado em direito em 2006 pelas Faculdades Integradas de Guarulhos, Nardoni ainda está impedido de exercer a advocacia, já que fracassou nas três tentativas de passar no exame da OAB: em abril e em agosto de 2007 e em janeiro deste ano. Em todas as ocasiões, foi reprovado ainda na primeira fase das provas. Nardoni se apresentava como "consultor jurídico" e dizia trabalhar no escritório de Antonio Nardoni, localizado no bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo. Mas tanto funcionários do prédio onde fica o escritório quanto um vizinho de porta do advogado afirmaram nunca ter visto Alexandre Nardoni por lá. Amigos dizem que o sustento do rapaz e de sua família ainda provinha do pai. O apartamento na Zona Norte de São Paulo em que Nardoni morava com a mulher e os dois filhos – com três quartos, piscina, sauna, quadra poliesportiva e sala de ginástica, avaliado em 250.000 reais – também foi presente de Antonio Nardoni.


Na época em que Alexandre Nardoni começou a namorar Ana Carolina Oliveira, a mãe de Isabella, tinha 21 anos de idade e fama de "filhinho de papai", como dizia, em tom jocoso, a mãe de Ana Carolina, Rosa Maria Cunha de Oliveira, que no princípio não aprovou o namorado da filha. Três anos depois, durante a gravidez de Ana Carolina, Nardoni entrou na faculdade e conheceu Anna Carolina Jatobá, com quem passou a manter um romance paralelo. Em depoimento à polícia, a mãe de Isabella afirmou que a relação com Nardoni terminou em 2003 porque ela "teve a certeza e a convicção" de que o namorado a estava traindo. Com a madrasta de Isabella, Nardoni sempre teve uma relação tumultuada. Amigos e vizinhos relatam episódios de ciúme e agressão entre os dois. Se Nardoni tinha fama de briguento, Anna Carolina é freqüentemente descrita como "esquentada". Algumas vezes, era ela quem começava a bater no marido, segundo afirmaram à polícia vizinhos do prédio em que o casal morou antes de se mudar para o edifício em que Isabella morreu. Anna Carolina, ela própria, não vinha de uma família que se poderia chamar de harmoniosa. O pai, Alexandre Jatobá, responde a nove processos na Justiça (a maioria por não pagamento de dívidas e um por furto de energia). Em duas ocasiões, em 2004 e 2005, a própria Anna Carolina prestou queixa à polícia contra o pai por lesão corporal, injúria e ameaça. Um ex-empregado de uma loja de carros que Jatobá teve em Guarulhos descreve o ex-patrão como "um homem muito nervoso".

Em depoimento à polícia, Ana Carolina Oliveira, a mãe de Isabella, disse que a filha nunca reclamou de maus-tratos por parte do pai ou da madrasta. Mas falou de dois episódios que sugerem que o casal, ao menos por duas vezes, maltratou seus dois filhos. Ambos teriam sido relatados a ela por Isabella. O primeiro dá conta de que Anna Carolina, em meio a uma discussão com o marido, motivada por ciúme, "jogou sobre a cama" o filho Cauã, de 11 meses, antes de partir para cima de Nardoni, furiosa. A criança teria começado a chorar e Isabella a acudiu. No outro episódio, Nardoni teria suspendido o filho mais velho, Pietro, de 3 anos, no ar e o soltado no chão, como forma de repreendê-lo por ter beliscado Isabella. Ainda que tenha presenciado esses episódios, Isabella não se sentia mal ao lado do pai e da madrasta. Mesmo pessoas ligadas à família de Ana Carolina Oliveira, mãe da menina, concordam que Isabella gostava do pai e da madrasta e afirmam que ela pedia para ser levada à casa deles. Isabella tinha especial afeição por Pietro, que estudava na mesma escola que ela.

Dois dias antes de Isabella morrer, a pedido dela, Pietro foi pela primeira vez à casa da irmã. Foi a avó materna da menina, Rosa Maria Cunha de Oliveira, quem contou o episódio a uma amiga. "Rosa disse que a Isa havia ficado muito feliz com a visita do irmãozinho", relata a amiga. Inicialmente, contou Rosa a ela, o pai da menina não queria permitir a visita, mas, diante da insistência de Isabella, concordou com o pedido e Pietro passou o dia na casa da irmã. Lá, sob a supervisão de Rosa, as duas crianças comeram pizza e brincaram. Isso aconteceu na quinta-feira. No sábado, Isabella foi morta. Pelo que foi possível reconstituir do crime até agora, a polícia acredita que Pietro assistiu a boa parte dos episódios que resultaram na morte da irmã. A delegada Renata Pontes, assistente no inquérito que investiga o caso, queria ouvir o menino, mas o Ministério Público foi contrário à idéia.

Ao longo do inquérito que investiga o assassinato de Isabella, a delegada Renata acabou ficando próxima de Ana Carolina Oliveira, que lhe telefona todas as noites para saber do andamento das investigações sobre a morte da filha. Nessas ligações, Ana Carolina, que poucas vezes foi vista chorando em público, cai freqüentemente em prantos. Sua mãe, Rosa, contou na semana passada à mesma amiga que chegou a sair de casa um dia desses por não suportar assistir ao sofrimento da filha, que chorava compulsivamente enquanto recolhia objetos de Isabella pela casa. "Ela disse que Ana Carolina apanhava coisa por coisa: até uma presilha da menina que estava caída na garagem", disse a amiga. Rosa contou ainda que se sente aflita pelo fato de Ana Carolina "não se abrir com os pais e os irmãos". "Ela disse que a filha não comenta o que está acontecendo ou o que está sentindo. Fala só de coisas do passado: lembranças de festas de aniversário de Isabella, dos momentos que elas passaram juntas."

Ana Carolina, que é bancária, já voltou a trabalhar. Por iniciativa da sua chefia, ela foi temporariamente afastada dos serviços de atendimento ao público e está incumbida de atividades administrativas. Entre 2004 e 2006, a mãe de Isabella estudou na Universidade Nove de Julho, onde se graduou no curso de formação específica em administração de recursos humanos. Durante o curso, além de trabalhar em empresas da área, ela vendia roupas e bijuterias para reforçar o orçamento. No início da manhã de sexta-feira, data em que Isabella completaria 6 anos de idade, Ana Carolina visitou o túmulo da filha pela primeira vez.
A polícia tenciona pedir a prisão preventiva de Nardoni e Anna Carolina. Se condenados ao final do processo, a morte de Isabella não será a única e aterradora culpa que carregarão. Eles são pais de duas crianças, cuja vida estará para sempre marcada pelas cenas a que elas – muito provavelmente – assistiram aterrorizadas.

O crime passo a passo
Ilustrações Davi Calil





FATO: Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, acompanhados dos dois filhos e de Isabella, participaram de uma festa no prédio onde moram os pais de Anna Carolina, em Guarulhos. A comemoração se deu por volta das 21 horas no salão de festas. Em dado momento, Nardoni se enfureceu com o que seria uma má-criação de Isabella. Gritou com ela e lhe deu um safanão. A menina caiu no chão. Ainda nervoso, ele disse à filha chorosa: "Você vai ver quando chegar em casa"
EVIDÊNCIA: câmeras do prédio dos pais de Anna Carolina registraram imagens de Isabella brincando na festa. A agressão de Nardoni foi presenciada por convidados que prestaram depoimento à polícia.

FATO: já no carro, de volta para casa, Nardoni e Anna Carolina começaram a espancar Isabella. A madrasta asfixiou-a a ponto de a menina desmaiar. Quando chegaram ao prédio, Isabella sangrava. O casal embrulhou a menina em uma fralda de pano para evitar que o sangue pingasse no trajeto até o apartamento
EVIDÊNCIA: a convicção de que Isabella já subiu ferida se deve ao fato de a perícia ter detectado marcas de sangue no carro de Nardoni. O DNA do sangue é o mesmo de Isabella. Também foram encontrados no carro fios de cabelo da menina com bulbos. Isso significa que ela teve os cabelos puxados com força. O tamanho das marcas no pescoço de Isabella é compatível com o das mãos de Anna Carolina. A polícia encontrou a fralda que foi usada para envolver a menina lavada e pendurada no varal do apartamento – mas ainda foi possível encontrar vestígios de sangue.

FATO: o casal entrou em casa com Isabella no colo de Nardoni. O sangue começou a pingar já no hall do apartamento
EVIDÊNCIA: a perícia detectou marcas de sangue de Isabella em vários lugares: no hall, na entrada do apartamento, no corredor, no quarto da menina e no quarto dos irmãos. Também havia sinais de sangue na sola do sapato de Anna Carolina

FATO: Anna Carolina e Nardoni iniciaram uma feroz discussão. Decidiram, então, simular um crime cometido por um suposto invasor. A polícia não encontrou indício nenhum da presença de um terceiro adulto no apartamento
EVIDÊNCIA: vizinhos relataram à polícia ter escutado gritos e palavrões proferidos por Anna Carolina

FATO: com uma faca e uma tesoura, Nardoni cortou a tela de proteção do quarto dos meninos. Antes disso, limpou com uma toalha, que depois foi lavada, o sangue que escorria de um corte na testa de Isabella
EVIDÊNCIA: a perícia encontrou resíduos de tela na roupa que Nardoni usava naquela noite e vestígios do sangue de Isabella na toalha lavada e pendurada no varal

FATO: Nardoni jogou a filha pela janela
EVIDÊNCIA: a perícia concluiu que é do seu chinelo a pegada encontrada no lençol da cama próxima à janela. Ele apoiou um dos pés na cama para lançar a filha. O buraco está a 1,60 metro de altura do chão, altura aproximada de Anna Carolina. A perícia concluiu que só alguém mais alto do que ela, como Nardoni, teria força suficiente para erguer Isabella, que pesava 25 quilos e media 1,13 metro de altura, até o buraco na tela

FATO: assim que Isabella caiu, Anna Carolina telefonou para o pai. Em seguida, Nardoni ligou para o seu e só então desceu para ver a filha caída
EVIDÊNCIA: os registros das ligações feitas pelo casal mostraram que não houve tentativa de pedir socorro médico. O resgate foi solicitado por vizinhos

FATO: Anna Carolina desceu em seguida, com seus dois filhos, e começou a gritar que o prédio não tinha segurança. Dirigiu palavrões a todos à sua volta e chamou o marido de "incompetente"
EVIDÊNCIA: vizinhos relataram a cena em depoimento à polícia

FATO: os bombeiros chegaram e tentaram reanimar Isabella. A menina foi declarada morta a caminho do hospital

sábado, 19 de abril de 2008

Incentivo na base



Colégio de São Paulo dá aula de jornalismo no Ensino Médio


Carla Soares Martin - do Comunique-se


Com um MP3 numa mão e duas folhas de caderno com as rebarbas de papel na outra, a estudante Amanda Fechter, de 16 anos, sobe correndo as escadas para a sala, onde vai participar de uma aula de Comunicação e Jornalismo. Finge que não, mas está ansiosa para relatar aos colegas seus três textos – feitos à caneta – que o blog a ser criado pela turma vai divulgar. A aula faz parte da grade curricular do Colégio Friburgo, na Zona Sul de São Paulo. A escola particular oferece aulas de jornalismo, cinema e tevê para o 1º e 2º ano do Ensino Médio.

Tudo começou em 2006, quando o jornalista Francisco Ucha, hoje responsável pelo Departamento de Comunicação do colégio, foi convidado para dar aula de Jornalismo no Programa de Formação para o Trabalho e Cidadania (PFTC), uma espécie de aula complementar. As aulas são de 50 minutos por semana. A proposta segue a metodologia da escola, explica a coordenadora pedagógica Iracy Garcia Rossi, de apresentar uma profissão aos alunos, mas também de exercitar a escrita – sensibilizar os alunos para as “questões” da sociedade.
“Qualquer profissional hoje em dia precisa de uma boa forma de se comunicar”, justifica Iracy. E complementa: “O jornalismo também sensibiliza para que o aluno conheça a realidade, as diferenças sociais, de atuar de forma contributiva”.

Primeira aula

Logo no primeiro dia de aula, Ucha lançou aos alunos: “Sabem o que é expediente?” Perguntou, conta, porque adorava, quando criança, olhar quem tinha feito o jornal. “Expediente de trabalho?”, um deles respondeu. O jornalista enfrentou um pouco de dificuldade de falar de jornalismo. Muitos não queriam escrever um “jornalzinho do colégio”, como explica Milena Barbosa de Campos Whitaker, hoje com 17 anos. Daí, Ucha usou uma isca: por que você não escreve sobre o que gosta? Milena aprovou. “Escrevo melhor do que falo e uni as duas coisas: minha paixão pela música e meu talento por redação”, diz.

O texto da aluna, “A música de nossas vidas”, saiu no jornal Pára Tudo!, feito pelos alunos em 2006. Lá, escreve: “Para muitos, música é apenas um som para curtir, escutar, cantar, dançar.” Mas para ela é diferente: “Eu a vejo como uma inspiração de vida, uma forma de expressão dos nossos pensamentos para o mundo, uma forma de reflexão sobre muitas coisas”.

Chaves versus jornalismo

Mesmo sem saber que o seriado Chaves tomou na semana passada o lugar o Aqui Agora, o aluno Thiago Bertholino Rodrigues, de 15 anos, solta na aula desta terça (15/04): “Chaves é cultura”. Defende o humorístico, com o qual Ucha concorda: “Chaves tem história, é crítica social”.
Thiago está gostando das aulas de comunicação. Comenta que assiste ao Jornal Nacional, na companhia dos pais, e faz sua análise: “É interessante, dinâmico e dá notícias do mundo todo”.
Na sala ao lado...Na sala do 1º ano, lá está o jornalista Marcos Stefano dando aula sobre Introdução ao Jornalismo. Fala das rotativas, do linotipo, de Gay Talese. Encontra eco na fala de Beatriz de Campos Buccolo, de 15 anos. “Qual é a diferença de um texto escrito de um texto jornalístico?” Beatriz responde:“Um texto jornalístico precisa comprovar, falar com pessoas para diferentes opiniões”.

Escritora desde os sete anos, a estudante adorou a oportunidade de estudar Jornalismo na escola. Quer seguir profissão. “Tenho muita coisa para falar”, explicar. “Quero mostrar que o mundo não tem que ser quadrado, como muita gente pensa”, diz, à altura de seu tênis all star.

Prepare-se para o Intercom 2008


Inscrições para o congresso nacional começam na próxima semana


A partir do dia 21 de abril, estarão abertas as inscrições de trabalhos para o 31º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que será realizado em Natal (RN), em setembro de 2008.
A submissão deverá ser feita pelo próprio site da Intercom e seguir as normas estipuladas (conforme descrito abaixo).
O período de inscrições se encerrará no dia 13 de junho e a data final para que os congressistas sejam comunicados dos aceites de trabalhos completos selecionados pelos comitês avaliadores está marcada para 30 de junho.


Para submeter trabalhos, o autor deverá estar inscrito no congresso. Até o dia 7 de julho, os valores da inscrição são os seguintes: R$ 260 (não sócios), R$ 130 (sócios da Intercom que quitaram a anuidade 2008) e R$ 100 (estudantes de graduação).

Os trabalhos inscritos devem enquadrar-se na seguinte tipologia:
1. Comunicação de pesquisa teórica: apresentação dissertativa e/ou reflexiva de estudo baseado em fontes secundárias, de natureza bibliográfica ou hemerográfica (estado da arte de um objeto ou área do conhecimento, no tempo e no espaço).
2. Comunicação de pesquisa empírica: descrição de evidências e interpretação de tendências resultantes da observação sistemática de processos, rotinas, fluxos, efeitos, bem como da análise de documentos primários ou de trabalhos de campo.
3. Comunicação de pesquisa experimental: apresentação de resultados de trabalhos laboratoriais, oficinas de produção, difusão e gestão de conteúdos, testes de aplicação tecnológica, criação artística e similares.
4. Comunicação de iniciação científica: apresentação de revisões bibliográficas ou de trabalhos exploratórios, supervisionados por docentes-pesquisadores.
5. Comunicação de divulgação científica: apresentação de leituras simplificadas de pesquisas teóricas, empíricas ou experimentais, adaptadas didaticamente para compreensão de iniciantes ou não especialistas naquela área de conhecimento.

Serão aceitos os seguintes formatos de trabalhos:
a)Comunicação individual: apresentação feita isoladamente pelo autor do trabalho;
b)Comunicações coordenadas: apresentação grupal de trabalhos de um mesmo tipo sobre tema comum ou de diferentes tipos sobre um mesmo fenômeno ou problema, selecionados e propostos pelo líder da equipe;
c) Conferência: dissertação panorâmica feita por autoridade de reconhecida competência na área ou tema com a finalidade de ampliar horizontes cognitivos;
d) Palestra: apresentação de natureza didática, proferida em linguagem coloquial, visando a transferência de conhecimento específico;
e)Pôster: apresentação de natureza didática, utilizando suporte visual, onde o autor expõe o resultado de sua pesquisa e se dispõe a dialogar com os interlocutores interessados;
f)Peça ou produto: exposição ou mostra de trabalhos laboratoriais, de produções tecnológicas e artísticas, bem como de materiais usados ou de flagrantes documentados.

Tipos de trabalho possíveis de inscrição nos eventos
Brasil-Portugal – Colóquio Bi-Nacional de Ciências da Comunicação
Comunicação de pesquisa teórica
Comunicação de pesquisa empírica.
Altercom – Jornada de Inovações Midiáticas e Alternativas Comunicacionais
Comunicação de pesquisa empírica
Comunicação de pesquisa experimental
Comunicação de divulgação científica
Endocom – Encontro de Informação em Ciências da Comunicação
Comunicação de pesquisa teórica
Comunicação de pesquisa empírica
Expocom – Simpósio da Pesquisa Experimental em Comunicação
Comunicação de pesquisa experimental
Intercom Júnior – Jornada de Iniciação Científica em Comunicação
Comunicação de iniciação científica
Multicom – Colóquios Multitemáticos em Comunicação
Comunicação de pesquisa teórica
Comunicação de pesquisa empírica
Comunicação de divulgação científica
NP-Intercom – Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação
Comunicação de pesquisa teórica
Comunicação de pesquisa empírica
Publicom – Encontro com Autores/Editores de Publicações Recentes sobre Comunicação
Comunicação de divulgação científica
Quem e onde apresentar trabalhos
Doutores, Doutorandos, Mestres, Mestrandos
Colóquio Binacional - Colóquio Brasil-Portugal de Ciências da Comunicação
Endocom – Encontro de Informação em Ciências da Comunicação
Multicom – Colóquios Multitemáticos em Comunicação
NP-Intercom – Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação
Publicom – Encontro com Autores–Editores de Publicações Recentes em Comunicação
Professores, Pesquisadores, Profissionais Graduados, Especialistas
Altercom – Jornada de Inovações Midiáticas e Alternativas Comunicacionais
Endocom – Encontro de Informação em Ciências da Comunicação
Multicom – Colóquios Multitemáticos em Comunicação
Publicom – Encontro com Autores–Editores de Publicações Recentes em Comunicação
Estudantes de graduação
Expocom – Simpósio da Pesquisa Experimental em Comunicação
Intercom Júnior – Jornada de Iniciação Científica em Comunicação

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Entre farpas e afagos


O site Digestivo Cultural publica o especial Blogueiros e Jornalistas. Vejamos, então, alguns pontos de vista sobre o tema.

Jornalistossaurus x Monkey Bloggers


Por Diogo Salles

Imagine, você, aquele almoço de domingo em que absolutamente toda a família está reunida. Pais cachaceiros, mães tiranas, filhos pentelhos, primos folgados, tios tarados, tias palpiteiras, cunhados cafajestes, sogras megeras, noras invejosas, avós ranzinzas... Tem lugar até para o cachorro mijão e o papagaio boca-suja. Misturando tudo isso no mesmo liqüidificador, óbvio que ninguém sairá ileso. E os sintomas dessa epopéia serão os mais diversos. De um lado as crianças correm, gritam, quebram, choram, brigam, fazem guerra de almofada e quase sempre acabam se machucando com as "brincadeiras de mão". Do outro lado, lá onde só fica "gente grande", os adultos se exaltam em verborragias idílicas, empanzinados em seus próprios vícios e embebidos em barris de cachaça. Após a comilança desenfreada, os bacuris seguem em seu pesadelo anárquico. Para os adultos, um breve sal de frutas e a busca pelo sofá mais próximo, onde roncarão como rinocerontes. Ao final do dia, a gurizada já não encontrará mais nada para destruir. Hora de acordar o papai, que, combalido pela ressaca que se avizinha, vai precisar de uma forcinha para chegar até o carro. Tchau. Domingo que vem tem mais.

Vejam como um simples almoço de família na modorra dominical serve como a metáfora perfeita para ilustrar este triste espetáculo. Bem-vindos à "guerra" de blogueiros contra jornalistas. E vice-versa ― como diriam os filósofos do clichê futebolístico. A polêmica até seria interessante, se ficasse na brincadeira. Mas é tola, exatamente porque se pretende séria. Embora este novo clássico da estupidez humana não seja tão vil quanto o da política (PT x PSDB ― ou Lula x FHC, como queiram), não deixa de expor o nosso maniqueísmo em sua face mais personalista e egocêntrica. Jornalistas e blogueiros que me desculpem pela acidez do título e pela ilustração, mas não fui eu quem inventou tais indumentárias e nem proclamou a "guerra".

A verdade é que essas não são apenas brincadeiras com um fundo de verdade. São carapuças que não poderiam ter servido melhor em seus respectivos. Vivo dizendo que nessa batalha falta bom senso. Tanto jornalistas quanto blogueiros sofrem de uma enfermidade bastante brasileira dos dias atuais: a falta de senso de humor e, principalmente, de autocrítica. Essa aversão do brasileiro à crítica já foi abordada pelo Julio aqui e o Polzonoff foi ainda mais longe: "Escrevi um livro totalmente inspirado pela minha tendência à auto-chibata. Parti do pressuposto errado de que as pessoas que escrevem são capazes disso também. Quando, na verdade, a regra é a auto-congratulação e auto-condescendência".

E assim o brasileiro segue, sempre levando-se demasiado a sério, engessado pelos mandamentos da cartilha politicamente correta. Quem não se lembra do piquete de orangotangos formado por causa daquela campanha publicitária do Estadão? Mais surpreendente foi a adesão de bons blogueiros à barricada. Gente que estava a léguas de distância do macaco Bruno preferiu se juntar a ele. A campanha nada mais era do que uma ironia. Um pouco exagerada, talvez, mas era uma boa oportunidade para os blogueiros fazerem uma auto-avaliação, repercutindo o assunto na blogosfera e, de quebra, devolver a ironia ao jornalismo paleozóico. Mas era esperar demais dos simianos. Ficaram tão ofendidos que foi necessária uma retratação do Estadão e um debate para colocar panos quentes no "mal-entendido". Nem tudo, no entanto, está perdido. Parece que o senso de humor foi resgatado e, na Campus Party deste ano, jornalistas e blogueiros aprenderam a aceitar suas diferenças e seus infames apelidos. Ainda que com um sorriso amarelo, mas aceitaram. Só ficou faltando a autocrítica.

E já que nunca houve um voluntário para fazê-la, ofereço aqui os meus humildes serviços. Afinal de contas, sou blogueiro e trabalho em jornal, portanto, também faço parte da "guerra". E, como estou nessa "guerra" a contragosto, sinto-me no direito de destroçá-la. Só não vale vestir a carapuça de novo, combinado? Não quero que ninguém perca aquele senso de humor conquistado a duras penas. Enquanto ambas as partes se autoproclamam como a salvação da lavoura, berrando as mesmas bravatas, trocando farpas e acusações, o leitor assiste impávido a este espetáculo dantesco onde só há perdedores.

Mas, enquanto a "guerra" acontece, será que os jornalistas se desviam das pautas mais interessantes ou deixam de apurar devidamente suas matérias? Será que, pela "guerra", os blogueiros rejeitam uma leitura ou pesquisa mais aprofundada para redigir um post de maneira minimamente decente? É possível. É provável. Saindo do pantanoso terreno dos achismos, vamos aos fatos. O jornalismo ainda não compreendeu o fenômeno da internet. É estranho que uma boa parcela de jornalistas ainda continue ignorando todo o potencial da web, acreditando que todas as respostas podem ser lidas somente no papel. Mas, se o jornalismo não precisa mesmo superar o período paleozóico, por que esses mesmos pterossauros, antes de alçar vôo, sempre dão uma passadinha lá no Google e nos portais?

Apesar de tudo, alguns medalhões continuam olhando a internet com certa desconfiança e desdém. Enxergam-na apenas como mais uma ferramenta. Ou, em casos mais extremos, como uma empregada a seu serviço. A internet pode ser (e é) muito mais do que isso. Falta enxergar as inúmeras possibilidades que ela oferece. De volta ao planeta dos macacos, certos blogueiros também não sabem (e não querem) ficar no seu galho. Nem bem chegaram ao mundo e já partiram para o confronto, querendo tomá-lo de assalto. Decretam, aos berros, o "fim do papel", a "democratização da informação" e outras pérolas do populismo on-line. Esquecem que, para tanto, precisam deixar de molhar as calças.

E alguns homo sapiens da net não usam fralda com flocgel ultra-absorvente, logo, não há como limpar a sujeira que fazem. Mas estranho mesmo é tentar explicar por quê muito do que se vê nos blogs são reproduções ou opiniões sobre o que se acabou de ler na grande mídia. Cômico e trágico. Um criticando o outro, mas, ao mesmo tempo, um usando o outro no trabalho diário. A metáfora inicial serviu apenas para mostrar que, embora "crianças" e "adultos" usem linguagens diferentes para se expressar e que, na maioria das vezes, não conseguem se entender, são "parentes" e precisam estar lado a lado. Esta é uma equação de difícil resolução e será muito difícil achar um consenso, mas dizem que sempre encontramos na simplicidade as respostas mais complexas.

De todas as questões levantadas até agora, só duas delas me parecem já respondidas de forma bem clara. A primeira é que um jovem escriba deve se iniciar na internet, ponto final. Através dos blogs, sites especializados etc., ele poderá experimentar seu texto e evoluir. Mais importante, terá a recepção quase que imediata dos leitores, o que poderá levá-lo a novos caminhos e descobertas. E tudo "di grátis". Se a empreitada der certo, é hora de arriscar algo mais ambicioso. Se não der, ninguém foi à falência e ninguém saiu ferido (a não ser as tradicionais viúvas e primas donas infiltradas na net). A outra é que a internet deixou de ser uma ferramenta há um bom tempo para se tornar uma realidade, queiram ou não. Com seus pouco mais de 10 anos, ainda incipiente, mas uma realidade. O que falta ainda (e vai levar alguns anos para isso) é adquirir a mesma relevância e credibilidade dos jornais. E esse período de maturação pode ser mais curto do que acreditam os céticos. Ou mais longo, caso os blogueiros insistam em sua cruzada apocalíptica.

Isso posto, a conclusão ― ridiculamente óbvia, mas, ainda assim, ignorada ― é que existe conteúdo de qualidade tanto na web quanto no papel. Claro que existe muito lixo nos dois também, mas de nada adiantará cada um varrer o seu para debaixo do tapete e atacar o outro lado. É preciso separar a matéria-prima e o material reciclável daquilo que é lixo não-reciclável. Espero que os jornalistas não fiquem chateados comigo. Afinal, sou apenas mais um filhote de dinossauro que acabou de sair da casca do ovo e está querendo avançar na pré-história. Gostaria também que os blogueiros, meus irmãos símios, perdoassem minha sinceridade, mas para arrotarmos caviar, precisamos comê-lo antes. Ah, não nos esqueçamos da fralda com flocgel!

Nota do Autor
O conteúdo desta coluna e sua data de publicação podem ter sido mera coincidência ou fruto de uma teoria conspiratória.